sábado, 16 de janeiro de 2016

Preciso de um ziper nas costas. Não tenho então criei um blog...

     
Eu sempre achei estranho o fascínio de algumas pessoas próximas a mim sobre a minha vida. Talvez pelas histórias que conto...talvez pela própria peculiaridade que é a minha vida pessoal e profissional...sei lá. Hoje eu não tenho amigos, ninguém com quem possa compartilhar minhas coisas e ideias, então quando menos percebo lá estou eu falando sobre coisas que fiz, faço e farei no futuro com qualquer um, e muitas vezes sem ter relação com o contexto...com a situação. As coisas que fiz no início da minha adolescência despertam um tremendo interesse nas pessoas, creio que elas querem saber como um menino negro, pobre, feio e estranho conseguiu chegar até aquela posição. Gosto da cara de espanto delas quando conto e da sensação de deixar aquela ponta de dúvida se o que eu disse era real ou não. Percebi então que consegui criar um personagem, que era eu; o eu que vivia entre um mundo fictício e real. Foi o que eu tive que fazer para conseguir sobreviver: inventei um outro eu. Ainda era eu só que vivendo uma vida que não era a minha por ela não existia. Nela havia pessoas, lugares, parentes, amigos, relacionamentos, comidas, festas e tudo o que fosse necessário para que eu pudesse sobreviver num mundo criado por mim para impressionar as pessoas, e o pior é que eu acreditava que ele realmente existia para as pessoas que eu queria que acreditassem neles. Eu já não sabia o quanto de mim era real e o quanto era invenção, eu já não sabia quem eu era e o porquê estava vivendo a vida de um personagem que eu havia criado. Aquilo estava me sufocando de tal modo que eu não sabia mais o que fazer... precisava manter o que eu já havia conquistado com mentiras, mas precisava fazer com que elas sumissem, mas se elas sumissem como eu iria viver? Eu era uma mentira, um trambiqueiro sufocando em mim mesmo. Ouvi em algum lugar que algumas vítimas de afogamento arranham o próprio rosto no desespero por um pouco que seja de ar, era assim que eu me sentia. Eu precisava de um ziper nas costas pra abrir, sair de mim e só voltar depois que meu corpo fosse purificado. Tinha que dar um jeito pra que uma parte de mim que não era real fosse embora pra algum lugar, mas pra onde?e como? Não é fácil mudar de emprego, cidade, nome e profissão como nos filmes e apagar o que se fez...não dá mesmo... tentei mas não deu (pelo menos pra mim). Então a parte "negra", no sentido bíblico, tinha que ir pra outro lugar e como ela surgiu da inocência de um jovem ambicioso resolvi transformá-la em um menino, assim dá a impressão e ser frágil, pequeno inofensivo e suaviza o que ele realmente é. Bom, eu abri o tal ziper e o que saiu de mim não foi realmente eu...